Colírio para fins estéticos: uso inapropriado de medicamento para glaucoma traz riscos à saúde

 

Depois da cirurgia para mudar a cor da íris e do terrível “vodka eyeballing”, outra prática perigosa está se disseminando entre as mulheres

 

Na busca por cílios longos, escuros e espessos, muitas mulheres estão abusando da estética e prejudicando a própria saúde, usando colírios para glaucoma “como se fossem rímel”.

Nos últimos anos, os estudos sobre a doença, ou sobre as doenças, denominadas glaucoma resultaram em mudanças conceituais consideráveis e, atualmente, o termo abriga patologias que apresentam quadros clínicos, patogenias e tratamentos distintos. Mesmo em meio às diferenças, estas doenças ainda estão agrupadas sob o mesmo termo médico por apresentarem características semelhantes, dentre as quais as mais importantes são o aumento da escavação da cabeça do nervo óptico e os danos no campo visual, frequentemente relacionados à elevação da Pressão Intra-Ocular (PIO).

Nos Estados Unidos existem cerca de 2,25 milhões de portadores dessas enfermidades, ao passo que, no Brasil, as estimativas giram em torno de 400 a 500 mil pessoas. Quando não tratado, o glaucoma pode causar a “cegueira negra” irreversível, na qual não se distingue nem a luz.

A redução da PIO por meio de colírios à base de análogos de prostaglandinas é um dos tratamentos clínicos estabelecidos para controlar a evolução do glaucoma. “Bimatoprosta, latanoprosta e travoprosta são substâncias presentes nos colírios para tratamento da doença que provocam, como efeitos colaterais, alongamento dos cílios, hiperpigmentação da íris, hiperemia da conjuntiva, uveíte anterior e edema macular cistóide”, diz o oftalmologista Virgílio Centurion, diretor do IMO, Instituto de Moléstias Oculares.

Tanto os colírios anti-glaucomatosos quanto seus conservantes podem provocar também várias reações inflamatórias, induzindo alterações da superfície ocular, como olho seco. “O tempo de administração, a concentração e o número de medicações utilizadas no tratamento do glaucoma dependem da severidade dos efeitos colaterais. A intolerância à medicação tópica leva muitas vezes à indicação de cirurgia antiglaucomatosa, que poderá ainda ser comprometida pelas inflamações causadas pelos medicamentos”, alerta Virgílio Centurion.

Uso estético dos medicamentos...

 

“Mesmo com tantos efeitos colaterais é preciso destacar que para os portadores de glaucoma, a aplicação do colíro é válida, pois os medicamentos proporcionam maior controle da PIO deste paciente. É sempre mais vantajoso garantir qualidade de visão por períodos maiores e ter alguns efeitos colaterais como consequência do tratamento do que diminuir o tempo de visão do paciente”, destaca o oftalmologista Ricardo Giacometti Machado, especialista no tratamento do glaucoma, que também integra o corpo clínico do IMO.

Já o uso deste medicamento sem orientação médica pode colocar a saúde ocular em xeque. “Dentre as principais reações ao uso de colírios anti-glaucomatosos estão alergia, vermelhidão ocular, lacrimejamento, irritação e inflamação sub-clínica, além de efeitos mais graves como a inflamação intra-ocular. Os colírios à base de análogos de prostaglandina alteram o metabolismo das proteínas estruturais dos olhos e podem interferir no uso de outros medicamentos para abaixar a PIO, o que pode mascarar o real aparecimento do glaucoma e prejudicar uma eventual cirurgia para tratar a moléstia”, alerta o oftalmologista.

Os colírios à base de análogos da prostaglandina também  podem causar alterações fetais, como malformações, baixo peso ao nascer e até abortamento, sendo formalmente contra-indicado o medicamento para gestantes e lactantes.

Ricardo Machado destaca também que a prática pode ter efeitos anti-estéticos. “Em alguns casos, além de aumentar os cílios, esses medicamentos podem provocar a descoloração dos mesmos, os quais podem ficar totalmente brancos; pode haver crescimento de pêlos em outros locais tocados pelo medicamento e crescimento irregular dos cílios. A íris do usuário pode, ainda, ficar mais escura, principalmente a do usuário que tem a íris mais clara. O medicamento pode também causar hiperpigmentação da pele das pálpebras, causando olheiras e a reabsorção da gordura orbitária, dando a impressão de ‘olhos fundos’. Nem todos esses efeitos colaterais são reversíveis com a suspensão do uso do medicamento, diferentemente do efeito nos cílios, que voltarão ao seu tamanho original, após algum tempo de cessado o uso do medicamento”, diz.

“É importante ressaltar também que o medicamento liberado pelo Food and Drug Administration – FDA – para pessoas que têm problemas de crescimento dos cílios  já é comercializado nos EUA. A substância ativa, bem como a sua concentração, são as mesmas dos colírios para glaucoma, apenas a apresentação é um pouco diferente. Tal medicamento foi aprovado para fins terapêuticos e não estéticos”, explica o oftalmologista.

 

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